NoNada Revista de Psicanálise

Nonada.

A palavra que abre o sertão de Guimarães Rosa traz em si o paradoxo de uma negativa dupla: um nada que insiste, uma bagatela que orienta. O sertão de Rosa é tecido de veredas incertas, palavras à deriva e contingências que metamorfoseiam aqueles que o atravessam. Com a psica¬nálise, compartilha uma mesma vereda: ambas se ocupam daquilo que escapa aos caminhos já traçados e irrompe como acontecimento. No sertão, assim como na experiência analítica, a verdade surge de viés, pelos desvios da fala e pela astúcia de um dizer tropeçante, convocando uma tra¬vessia cujo horizonte permanece sempre além do já sabido.

Foi sob a égide desse significante não-senso, vizinho do objeto a, que essa revista nasceu no Campo Lacaniano de Belo Horizonte. Trata-se de recolher o que insiste como resto insolúvel da práxis e conferir-lhe o estatuto de transmissão. Contra o empuxo de uma época que pretende reduzir o laço social a uma métrica calculável ou performática, que silencia o sintoma pela via do fármaco e que promete uma eficácia adestrada, a transmissão na psicanálise aposta na subver¬são das belas formas.

Vamos, então, para os passos seguintes da NoNada Revista de Psicanálise, que habitará uma política editorial baseada em uma descontinuidade calculada: volumes temáticos darão lugar, intercaladamente, a edições abertas aos temas gerais da nossa práxis – pulsação que impede o fechamento do saber e preserva o lugar para o inesperado.

Fica relançada, portanto, a convocação à transferência de trabalho de nossa comunidade. Esperamos animados pela sua contribuição.   

        Nº1 | SET 2026